Superfície que também (não) é dentro – exercício do espelho

FAZ FRIO.

MEU CORPO ESTÁ NU. NU EM PÊLO.

PELES, DOBRAS, SUPERFÍCIES, CURVAS, LINHAS.

EM TODA A PARTE HÁ MARCAS. HÁ TEMPO.

O QUE FOI OUTRORA JAMAIS SERÁ HOJE.

O HOJE JAMAIS SERÁ FUTURO.

OS FIOS DA MINHA CABEÇA FORMAM VOLUMES DESAJEITADOS. MINHA CABEÇA FICA DESAJUSTADA.

PODERIA DAR UMA COR AO CORPO. BEGE. NEM MORTO, NEM VIBRANTE.

TENHO OSSOS MUITO DUROS. NUNCA QUEBRARAM. APESAR DO TEMPO E DO PESO DA GRAVIDADE. MINHA PERNA É LONGUÍSSIMA, COMO AS DE UM AVESTRUZ.

HÁ DESPROPORCIONALIDADE. TRONCO E MEMBROS IRREGULARES. TENHO UMA PERNA MENOR QUE OUTRA. ISSO ME TRAZ DESCOMPASSO.

MEU CORPO JÁ FOI PEQUENÍSSIMO, JÁ COUBE TODO NOS BRAÇOS DE ALGUÉM. AGORA JÁ NÃO CABE MAIS EM MIM.

ATRAVÉS DO ESPELHO VEJO APENAS UMA METÁFORA. ALGO QUE PODE SER OU NÃO É. NÃO HÁ UM PLENO RECONHECIMENTO DO QUE É FORA E DO QUE É DENTRO. POR ISSO CONSTANTEMENTE NÃO ME RECONHEÇO QUANDO ME VEJO FORA. TAMBÉM NÃO ME RECONHEÇO NOS OLHOS DO OUTRO. JÁ FUI TOMADA PELO HORROR AO VER O QUE POSSO SER ATRAVÉS DE UM OUTRO OLHO QUE NÃO O MEU.

HÁ MUITAS MARCAS NESSE CORPO QUE É MEU CAMINHO. CAMINHO ÚNICO, SÓ ELE ME PERTENCE. SÓ TENHO A ELE. POR MAIS QUE ÀS VEZES QUEIRA TOMAR OUTROS RUMOS – PORQUE OS QUE CONHEÇO JÁ ME BASTAM OU ME CANSAM -, SÓ A PISTA QUE O MEU PRÓPRIO CORPO ME DÁ PODE SER CAMINHADA.

MEU CORPO ME ENSINA A VIVER?

TENHO DESEJOS QUE MEU CORPO NÃO PODE ME OFERECER. MEU CORPO TEM DESEJOS QUE, POR VEZES, NÃO SÃO MEUS DESEJOS. RECLAMAMOS UM COM O OUTRO. JÁ NOS AGREDIMOS TAMBÉM.

MUITAS COISAS NÃO ESTÃO MAIS NO LUGAR. HÁ MUITAS COISAS FORA DA ORDEM DO DIA OU DE UMA VIDA INTEIRA. ME TORNO FEITA DE AGORAS QUE NUNCA FORAM PASSADO E QUE TALVEZ SE TORNEM FUTUROS MAIS AMENOS OU MAIS CARREGADOS.

O TEMPO ME CONFUNDE. MEU CORPO ME CONFUNDE. ORA SOU UMA BOCA CHEIA DE DENTES, ORA UM MÚSCULO FLÁCIDO.

TENHO UM CORPO QUE SE FAZ CONCRETO APESAR DE TODA ABSTRAÇÃO DA VIDA. POSSO TOCAR NA IDÉIA, NA IMAGINAÇÃO, NA VISÃO, NO DESEJO E NA CONTRA-VONTADE.

A CARNE POR DENTRO É VERMELHA. OS PRÓPRIOS OLHOS ME PROVOCAM ESTA ILUSÃO.

MEUS MOVIMENTOS NÃO SÃO MEUS. TORNARAM-SE MEUS NO MOMENTO EM QUE PELA PRIMEIRA VEZ PUDE VER O OUTRO MOVIMENTAR-SE. O OUTRO ME ENSINA. POR VEZES APRENDO.

SOU EU PORQUE NÃO SOU O OUTRO. ESTE PRINCÍPIO BÁSICO SE FEZ MINHA SALVAÇÃO E MINHA PERDIÇÃO.

QUE PULSÃO ME DOMINA?

MEU CORPO GANHA MAIS TEMPO A CADA DIA. OU PERDE TEMPO? ISTO É INCALCULÁVEL. O QUE SEI É QUE MEU CORPO É O QUE É SOMENTE HOJE. HOJE É A SUA DURAÇÃO.

MEU CORPO GANHA VIDA E MORTE A CADA DIA.

Oddarah

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