Desespero quieto

A tristeza. Aí, o Reinaldo, na paragem, veio para perto de mim. Por causa da minha tristeza, sei que de mim ele mais gostava. Sempre que estou entristecido é que os outros gostam mais de mim, de minha companhia. Por que? Nunca falo queixa, de nada. Mas eu carecia de ficar sozinho. Nem a pessoa especial do Reinaldo não me ajudava. Sozinho sou, sendo, de sozinho careço sempre nas estreitas horas – isso procuro. Eu queria mesmo algum desespero. Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. De repente, de repente tomei em mim o gole de um pensamento.

Compadre meu Quelemém me ensinou que todo desejo a gente realizar alcança, se tiver ânimo para cumprir sete dias seguidos, a energia e paciência forte de só fazer aquilo que dá desgosto, nojo, gastura e cansaço, e rejeitar toda qualidade de prazer. Até mesmo aquele desejo principal. E dar tudo a Deus, que de repente, vem com coisas novas e mais altas. Espécie de reza? Bem, rezar, aquela noite, eu não conseguia. Até para a gente se lembrar de Deus, carece de se ter algum costume. E foi que, no dia que amanhecia, eu não ia pitar, por forte que fosse o vício da minha vontade. E não ia dormir, nem descansar sentado nem deitado. E não ia caçar a companhia de Reinaldo, o que de tudo mais prezava. Resolvi aquilo e me alegrei. O medo se largava de meus peitos, de minha perna. O medo já amolecia as unhas. O que resolvi, cumpri. Fiz.

Ah, aquele dia me carregou. De não pitar, me vinham uns rangidos repentes, feito eu tivesse ira de todo mundo. Aguentei. Saí caminhando, bis e tris, ia e voltava. Me deu vontade de beber a da garrafa. Rosnei que não. Não tinha nem sono nenhum. Medo mais? Nenhum algum! Agora viesse corja de zebebelos ou tropa de meganhas, e me achavam, ah bastantemente! Eu aceitava qualquer vuvú de guerra, e ia em cima, enorme sangue, ferro por ferro. Até queria que viessem. Aí quando passos escutei, vi: era o Reinaldo que queria comigo conferir.

Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia disso. Senti. Pensou que eu estava amofinado, e eu não estava. O que era sisudez de meu fogo de pessoa, ele tomou por mãmolencia. –“ Riobaldo, amigo…” – me disse. Dei nenhuma resposta. Quanto mais eu mostrava para ele a minha dureza, mais amistoso ele parecia. Mas graças a Deus, o que ele falou foi com a sucinta voz:

“ Riobaldo, pois tem um particular que eu careço de contar a você, e que esconder mais não posso… Escuta: eu não me chamo Reinaldo, de verdade. Este é nome apelativo, inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar porquê. Tenho meus fados. Meu nome verdadeiro é Diadorim. Guarda este meu segredo. Sempre quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve me chamar.”

Assim eu ouvi, era tão singular. Ele me deu a mão. Daquela mão eu recebi certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Logo eu disse: – “Diadorim… Diadorim!” – com uma força de afeição. E eu gostava dele, gostava, gostava. Aí eu tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção, por toda a vida. Ao mais, os olhos me perturbavam, mas sendo que não me enfraqueciam. Diadorim.

GUIMARÃES ROSA

Anúncios

1 Comentário»

  paliativo wrote @

esse texto é demais


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: